Wednesday, 30 December 2015

o ponto em que não há retorno



essa semana está durando um mês. penso na inutilidade de tudo (dormir, acordar, comer, dormir, acordar, comer, sair para andar pelas únicas 3 ruas da cidade que já decorei e da qual já estou cansada). me derramo sobre a rede, tento ler e não consigo, tento escrever e não consigo (meu deus, o que eu vim fazer aqui?). penso no que eu estaria fazendo se estivesse em casa e chego à esquisita conclusão de que não estaria fazendo nada. cama, sofá, televisões e computadores e celular, um almoço num shopping, reclamações sobre o calor insaciável da cidade.

é curioso que aqui eu me sinta desperdiçando o tempo se é exatamente isso o que mais faço em casa. penso: nunca mais vou recuperar os dias que perdi aqui. penso: estou perdendo minha vida. penso: não posso me dar a esse luxo. mas me dou todos os dias, 25 anos de muito tempo jogado fora enquanto acumulo pilhas e mais pilhas de expectativas fragmentadas, atropeladas, gaguejadas sem parar. até quando, mulher? (os 26 já tocam a campainha.)

também curiosamente, aqui me sinto plena como há tempos não me sentia. aflita, irritada, melancólica, saudosista, entediada, mas estranhamente plena. como se comesse exatamente o que preciso comer (nunca estou com fome, mas nunca estou enjoada), como se dormisse exatamente o que preciso dormir (nunca estou com sono, mas nunca durmo demais), como se meu corpo estivesse na temperatura certa (nunca estou com calor nem com frio). uma plenitude esquisita, que nada tem a ver com descanso - já que ainda, mesmo essa sendo minha última semana de férias, continuo sentindo que preciso descansar, continuo sentindo que algo em mim fica ainda mais esgotado e desgastado e exausto aqui, continuo sentindo que estou sendo levada ao meu limite, o dedo enfiado no buraco da bala, até chegar ao ponto em que (beijos, kafka) não haverá mais retorno. e sim, esse é o ponto que deve ser alcançado, eu sempre soube, eu sempre fingi não precisar saber.